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André Trigueiro escreve: A urgência da prevenção ao suicídio

Enquanto você lê esta matéria, diversas pessoas podem atentar contra a própria existência.

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Da Redação

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), mais de 800 mil indivíduos tiram a própria vida a cada ano. O dado é alarmante e demonstra quanto é necessário criar medidas preventivas contra esse desafio global. Com o objetivo de contribuir para a discussão e o esclarecimento do assunto, de tamanha relevância, o Parlamento Mundial da Fraternidade Ecumênica, o ParlaMundi da Legião da Boa Vontade, em Brasília/DF, sediou, em 10 de setembro (Dia Mundial de Prevenção ao Suicídio), a palestra “Viver é a melhor opção”, que foi proferida pelo jornalista e escritor André Trigueiro, editor-chefe do programa Cidades e Soluções (GloboNews), repórter da TV Globo e comentarista da Rádio CBN, e da qual participaram centenas de pessoas. O público lotou o auditório Austregésilo de Athayde a fim de obter maior conhecimento sobre o tema. “Todo mundo curtindo o feriadão da Independência reunido aqui na LBV para compartilhar informação a serviço da vida. Isso é muito bonito”, ressaltou Trigueiro na ocasião. O evento foi transmitido, ao vivo, pela FEBtv, emissora pertencente à Federação Espírita Brasileira, e pela página da LBV no Facebook (LBV Brasil), alcançando mais de sete mil telespectadores.

André Trigueiro

A LBV, que, há mais de seis décadas, colabora, por meio de diversas ações socioeducacionais, para a conscientização e compreensão do problema e de suas consequências, sentiu-se honrada em abrigar palestra tão edificante. Para que mais pessoas tenham contato com o conteúdo desse debate, a revista JESUS ESTÁ CHEGANDO! traz, a seguir, a transcrição dos principais trechos da palestra conduzida por André Trigueiro, promovida pela Federação Espírita do Distrito Federal (FEDF).

Conhecimento que salva vidas

Para termos saúde, nos livrarmos dos riscos das doenças “de A a Z”, precisamos de informação. Isso também vale para o suicídio. O Setembro Amarelo tem como função veicular informações sobre um problema de saúde pública que boa parte dos brasileiros não sabe o que é. (…) E o ponto mais relevante: 90% dos casos podem ser detectados, porque estão associados a patologias de ordem mental que possibilitam diagnóstico e tratamento. 

Números alertadores

Vamos nos ater aos dados da OMS e do Ministério da Saúde [do Brasil]: no globo, cerca de 800 mil suicídios são confirmados por ano — uma média de 2.200 óbitos por dia, [o que equivale a] um novo caso a cada 40 segundos. [Ocorrem] Mais casos de suicídio oficialmente registrados no planeta do que de homicídios ou óbitos em conflitos armados ou guerras. As tentativas contra a própria vida são muito superiores: aproximadamente 16 milhões  por ano. No Brasil, há 32 óbitos por dia. Nosso país aparece na sexta posição no ranking mundial de incidência de suicídio. E, pasmem, esses números não traduzem a realidade; eles são muito maiores.

Efeito Werther

Há uma razão, um fundamento, para se ter cuidado ao se falar de suicídio. Isso vem de longe. Em 1774, no século 18, houve evidências que marcam o início do conhecimento sobre o que se convencionou chamar de “gatilhos”, situações que podem agravar a fragilidade de pessoas vulneráveis psíquica ou emocionalmente. Estou falando de um romance, escrito no auge do Romantismo, por um alemão chamado Goethe: Os sofrimentos do jovem Werther. Werther é um rapaz e apaixona-se por uma moça. Ele é correspondido, e eles vivem uma linda história de amor, até que a família a obriga a se casar com outro. Werther, desiludido amorosamente, mata-se. Nos meses posteriores ao lançamento do livro, vários rapazes apareceram mortos na Europa: cometeram suicídio com o mesmo método do personagem da história de ficção. E aí acendeu a “luz amarela” da área da ciência médica, [tanto que] Goethe foi processado pela Justiça. Deu-se o nome de efeito Werther a toda menção que afronta o bom senso [do valor da vida e que induziria atos suicidas subsequentes]. 

Responsabilidade da mídia

A OMS estabeleceu regras para se falar de suicídio no jornalismo, na literatura, numa peça de teatro (…). Há maneiras de abordar o tema que podem ser lesivas a quem está fragilizado psíquica ou emocionalmente. (…) Não é para ficar reportando toda ocorrência. Se é inevitável falar da morte de alguma personalidade importante, a OMS recomenda que não se abram generosos espaços — reportagens, fotos, manchetes — sobre isso. Não explique, em detalhes, como a pessoa se matou, pois irá didatizar o método. (…) Não enalteça as qualidades morais do suicida. [Esta última recomendação] É curiosa, porque [o contrário disso] gera um efeito mórbido em quem está com a indução ao suicídio. O indivíduo pensa: “Olha! Ele se matou, e falaram muito bem dele!”

Depressão: o principal fator de risco

Liderando o ranking dos fatores de risco das psicopatologias em relação ao suicídio, temos a popularíssima depressão, que não é sinônimo de estado depressivo, algo comum em nossa existência. A dor e o sofrimento fazem parte da vida de todos nós. (…) Depressão requer ajuda especializada. Ela é uma tristeza persistente. E o pior: em boa parte dos casos, não se tem a menor ideia do porquê de se estar sofrendo tanto, e isso faz padecer ainda mais. (…) Quando há o diagnóstico [dessa psicopatologia], temos de seguir um protocolo terapêutico, confiar a alguém a tarefa de nos ajudar a lidar melhor com ela. Depressão não tem cura, tem tratamento, e é possível ter qualidade de vida com ela. Também é importante, a partir de uma avaliação médica, o uso de medicamentos, porque, nos estágios mais avançados e graves, se pode não ter ânimo para levantar da cama. (…) [Alguns podem dizer:] “Mas já estou tomando esse remédio há tempos e não sinto melhora alguma”. Não somos máquinas, somos seres humanos. O médico está ali para descobrir qual é a medicação adequada e em que dosagem. A resposta de cada um é diferente. É fundamental termos certa paciência para lidar com isso.

Drogas: outro grande perigo

Conforme dados da OMS, o segundo fator de risco associado ao suicídio é o uso de drogas, como o cigarro, a bebida [alcoólica], remedinhos que fazem dormir como bebê. [Droga] É qualquer substância que altera o seu metabolismo, e isso é sério, porque, quando você se automedica, pode desenvolver dependência (…). Se crio dependência, não tenho mais autonomia, não sou senhor do meu destino. (…) Um dos “esportes” mais populares do Brasil é a automedicação. (…) Se não há orientação médica, a pessoa pode estar caminhando para a beira de um abismo. (…) Temos o problema de você mesmo descobrir atalhos para não sofrer, sem perceber o perigo de que está semeando algo muito pior de se resolver depois. Outro problema associado à automedicação: o que se busca com “gotinhas mágicas”? “Medicalização da dor”. [Essa] É a expressão que se usa quando a gente quer se dopar, se entorpecer para esquecer da dor de existir, do sofrimento momentâneo (…). Devemos passar pelo luto, que é fundamental para a nossa saúde, já que é tempo para o refazimento.

Razões sociais

Precisamos prestar atenção aos fatores sociais que nos predispõem à vida, à saúde, ao altruísmo, ao otimismo, à esperança e aos que nos deprimem, que nos deixam desesperançados, sem perspectiva de saída. Quando vemos um telejornal repleto de notícias violentas (…), o que estou ouvindo não está me fazendo bem e, de alguma forma, está maculando a minha visão da cidade, do mundo, do tempo que eu estou vivendo. Qual é o espaço para a esperança, para uma visão mais luminosa, mais altruísta? Sobrou algum?

Os principais sintomas de quem pensa em se matar

A pessoa pode, inadvertidamente, soltar uma frase de efeito que traz embutido um sentimento nessa direção. Ela pode escrever uma carta, uma mensagem no Facebook, no Instagram, no Twitter, que traz algum componente que deveria soar como alerta. Existem hábitos e comportamentos anômalos, que não coincidem com o estilo de vida e com o jeito de ser daquele indivíduo. Ele fica diferente, e isso talvez tenha mil razões. Uma delas: pode estar com algum sofrimento e dificuldade em conversar.

Juventude vulnerável

Estão se elevando as taxas de suicídio entre os jovens. Por que isso está acontecendo? Não há conclusões objetivas. Muitos estudos ainda são feitos, mas vamos fazer uma reflexão breve: o que é ser jovem hoje? Pai e mãe têm mais dificuldade de dispor de tempo para interagir com filhos e filhas. Estes estão maior tempo por conta própria do que já estiveram no passado, maior tempo dispersos na internet e nas redes sociais, consumindo de seis a oito horas por dia, e ninguém sabe ao certo que efeito isso terá na vida adulta. [Essa é] Uma garotada que hoje está acostumada a ver respostas no Google em três segundos para tudo. (…) De acordo com o filósofo polonês Zygmunt Bauman, talvez os jovens estejam desenvolvendo uma impaciência crescente com aquilo que não se resolva rápido. (…) Substituindo os amigos de verdade pelos virtuais, estão ficando destreinados na interação social.

Por que mais idosos são vítimas?

A faixa etária que tem representação estatística importante é a dos idosos. O que é se tornar mais velho em países como o Brasil? Em certos lugares do mundo, o idoso é mais respeitado ou tem [destinadas a ele] políticas públicas mais assertivas. Em outros, é encrenca. Envelhecer significa acumular perdas. [Certas pessoas podem afirmar:] “Eu já não trabalho”, “Boa parte dos amigos já partiu”, “Não tenho mais força física ou resistência”, “Meu sono passou a ser intermitente”, “Não consigo escutar como escutava” etc. Pais cuidam dos filhos; depois, os filhos deveriam cuidar dos pais, e, quando não os tratam com o mesmo respeito, afeto e amor, é doloroso.

Pensamento suicida tem mais de uma causa

Não é possível dizer que uma pessoa se tenha matado apenas por uma razão. Para a suicidologia, existem o fator principal e possíveis causas associadas a ele. Por exemplo: uma pessoa que se matou por ter se desiludido amorosamente. Ela teve uma infância com atenção, afeto, carinho, olho no olho, intimidade com os pais ou responsáveis, confiança? Quem tem tudo isso não está blindado contra o risco de suicídio, mas esse risco é reduzido devido à nutrição emocional, que acompanha o indivíduo pelo resto da existência. Nas lembranças desse carinho, desse amor do pai e da mãe, existe uma salvaguarda.

A importância de enfrentar a dor

Quem não aceita a dor sofre mais. Parece sábio — e é o recado das principais correntes filosóficas e espiritualistas — que a gente busque uma resposta que faça sentido, seja ela qual for. Ainda que não se encontre a solução, praticar ioga, meditar, fazer algum esporte, ir ao parque, andar de bicicleta, cuidar melhor de si mesmo [ajuda]. (…) Lide com o estado depressivo com criatividade e altivez, porque ele faz parte da vida. Muitos de nós nos aproximamos do território da fé motivados pela dor, e ela não é, portanto, um castigo; é um convite que nos incita a ir em direção de saídas. (…) Também apraz saber que várias instituições religiosas estão construindo pontes com profissionais de saúde. Não podemos ter arrogância, por mais que a nossa crença seja robusta.

O valor de crer em uma Força Superior

Algumas pesquisas apontam nessa direção: a pessoa que se matou possuía alguma crença numa Força Superior? Acreditava em algo além do que os olhos alcançam? Não é que essa condição isente alguém de problemas no território da depressão ou do risco suicida, mas alguém em profundo desespero, em desacordo com a vida, se começa a construir a ideação suicida, em algum momento vai ter que dialogar com essa Força Superior das mais diferentes maneiras. (…) Se estou sofrendo e tenho alguma fé, antes de consumar o ato desesperado do suicídio, há uma esperança, ainda há algo a resolver.

Como lidar com quem tentou o suicídio?

Com amor, com carinho. Quem busca [matar-se] uma vez tem uma gigantesca probabilidade de tentar novamente. Ela é digna de todo o atendimento, de todo o acolhimento, de toda a assistência médica especializada, sem censura, sem bronca, sem botar de castigo (…). A palavra-chave citada por todos os psicólogos, psiquiatras, suicidólogos que entrevistei é “acolhimento”, [para] conquistar confiança.

De que forma ajudar os pais cujos filhos tentaram o suicídio? Com informação. Procure ajuda especializada: um psiquiatra, um psicólogo… De repente, [aquele jovem] tem uma depressão instalada. (…) Às vezes, a pessoa tem depressão e parece ótima, mas ela está por dentro arruinada, e o familiar não compreende isso. Tem que se ter cuidado [com o que se vai falar], tem que se conhecer [quem está sofrendo]; senão, podemos acelerar um processo mórbido de desistência da vida.

De que forma lidar com a perda de um ente querido?

A perda dos entes queridos lidera os motivos de estresse. Isso é reconhecido pela legislação trabalhista. Enquanto escrevia o livro Viver é a melhor opção, conheci inúmeros pais que perderam os filhos pelo suicídio. O que eu aprendi com eles foi o seguinte: tente ressignificar sua existência sem seu filho. Normalmente, todo afeto, todo amor e carinho que dispensava a ele permanecem em você. Muitos encontram alívio quando conseguem redirecionar esses sentimentos aos filhos dos outros (…), doar a quem precisa. Isso opera milagres.

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